sexta-feira, 2 de abril de 2010

Rasgos

"Quando te vi luziu-me uma centelha.
Perdi o rumo, o chão: perdi a fala.
Fiz-me cortês e, então, p'ra conquistá-la
Rasguei uns versos com tinta vermelha

Mas foi em vão tal poesia torta
Porque não te iludiam os pronomes
Para que me notasses, nossos nomes
Rasguei na casca duma árvore morta

E vendo qu'inda tinha fracassado,
Tentei um método desesperado:
Rasguei a pele em tatuagem rasa!

E ao perceber que não serias minha
Te amei da forma como me convinha:
Rasguei-te o peito e te pus toda em brasa!"


Victor Ribeiro

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Esquecido

O ilustre desconhecido a quem recorre todas as noites
Não o comprimido, menos ainda a xícara de café cheia
Lembrando agora do garoto que se foi, não sabe para onde

Se foi sozinho, levando dela apenas uma fotografia e um gosto amargo na boca
Foi-se cego, recordando o crepúsculo, as estrelas e a Lua
Desiludido, cansado, desanimado
Sussurrou uma canção não mais tocada, jamais cantada
Cambaleou, escorregou e à Morte se agarrou 
Caiu sozinho, perdido
Deixou escapar entre os dedos a última chance
Desesperado, atordoado, viu pela última vez o amor
Acreditou, foi ferido, sobreviveu e desistiu.