sábado, 13 de novembro de 2010

Dumb



Um casarão mal cuidado. Seu jardim era morto e sem graça. A chuva caía forte naquela noite. Raios iluminavam a fachada da velha casa.
Do caminho ouviam-se passos rápidos. De longe víamos a silhueta de alguém que se dirigia a porta da casa.
Felicidade adentrou a casa, e foi logo recepcionado pelo grito do Dr. Tédio, que vinha do quarto
- DUMB NASCEU!
No quarto mal iluminado por velas estavam Sr. Azar e Sra. Dor, com o médico, Dr. Tédio.
O obstetra cuidava da mãe de Dumb, que saíra chorando, como todas as crianças normais. Também estava pelado, careca, gordinho e coberto de sangue. O ar entrava por sua traquéia, queimando-lhe por dentro. Ele descobriu então que respirar é doloroso.
O bebê cresceu em sua casa cheia de quartos fechados, intransponíveis. Porém, ele não se importava, estava conseguindo ser o centro das atenções. Acostumaram-lhe com isso.
Sua avó, Carinho, enchia-o de amor e doces. Seu avô, desgosto, deu-lhe um carrinho de madeira.
Dumb estava feliz.
Uma criança sorridente. Encantada com todas as cores, e formas. Com o canto dos corvos em sua janela. Uma criança esperta e estúpida, como as demais.
Mas então aconteceu. Ele cresceu.
A partir de seus 9 anos, Dumb passou a brincar mais na rua. Gostava de passar o dia no jardim de sua mãe.
O jardim de Sra. Dor era imenso, do tamanho de seu coração. Muito espaço para seu filho divertir-se. Existiam umas árvores secas espalhadas pelo terreno acidentado. Urtigas, rosas vermelhas, brancas e negras, espinhais. Tudo isso havia por lá. Também encontrava-se um rio em meio a este. Era negro e sem vida. Existia apenas um banco em uma de suas margens , onde Dumb sentava-se para ver a Lua. Fascinava-se com o reflexo desta nas águas. Gostava de banhar-se com a luz da lua, na água.
Durante as tardes corria descalço por entre os espinhais, sobre pedras, até cansar-se. Então ele se deitava sobre uma roseira, e cheirava as pétalas negras das rosas que adorava. Olhava para o céu, enquanto os acúleos penetravam e rasgavam sua carne. Seus olhos dirigiam-se ao céu constantemente nublado, e ele implorava pela chuva, para poder sentir os pingos gelados em seu corpo.
Em uma destas tardes mui produtivas, o menino conheceu uma linda garotinha chamada Loucura. Nunca vira alguém tão bela quanto ela. Estava enfeitiçado, apaixonado. Aquela paixão estúpida da infância. Ali estava sua companheira de brincadeiras.
Um dia os dois corriam de mãos dadas pelo jardim, quando de repente Loucura teve uma idéia.
- Vamos correr nus Dumb? – perguntou com sua voz doce e infantil. Um sorriso de criança estampado no rosto.
- Tanto faz - respondeu ele cheio de apatia.
Então eles tiraram suas roupas, e voltaram a correr. Enfiavam-se entre urtigas e espinheiros. Os cabelos deixados para trás, o vento batendo em seus rostos.
O garoto parou de correr, e ficou quieto, olhando uma árvore seca.
- O que houve – perguntou a menina.
Ele apontou a árvore.
- Olha! Olha que lindo! – gritou com um brilho inocente e cheio de vida em seus olhos.
Loucura acompanhou o olhar dele e enfim notou o que fascinava Dumb. Um pássaro sozinho em um dos galhos mortos.
O passarinho era lindo. Suas penas azuis, seu bico preto. Mal tinha a altura de 10 centímetros. Ele fitava o chão.
As crianças sentaram-se em uma pedra enquanto apreciavam o passarinho azul, o qual levantou lentamente a cabeça e fitou-as. Serenamente ele seguiu até o fim do galho, e cantou uma melodia. Mas sua voz saiu fina, baixa. Quase um sussurro. Jogou-se ao ar, e caiu no chão. Quase não fez barulho.
Correram até o pássaro. Dumb pegou-o entre suas pequenas mãos, e o jogou ao ar.
- Voa Azulzinho!
E a ave caiu de novo ao chão. Dumb ficou um pouco decepcionado, mas não desistiu, e pegou-o novamente entre as mãozinhas, e o arremessou no ar.
- Voa Passarinho Azul!
E de novo ela foi ao chão.
- Deixe-me tentar Dumb!- Disse Loucura.
Ela o pegou, e repetiu o gesto do menino, mas sem efeito.
Assim passaram o dia, tentando fazer o passarinho voar, sem resultados.
No fim, ambos estavam já cansados. Dumb pegou o passarinho mais uma vez, e olhou-o zangado.
- Te odeio passarinho.
E foi embora, seguido por sua amiga.
Durante a noite ele voltou com uma caixa vermelha, forrada por dentro com uns panos. Pegou o pássaro amavelmente, e o colocou dentro dela.
- Vamos passarinho! Irei cuidar de você.

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